Saturday, October 31, 2009

Como Eu Não Possuo

Olho em volta de mim. Todos possuem --
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minh' alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
-- Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse -- ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!...

Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo...
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?...

Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor...
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos d' harmonia e cor!...

Desejo errado... Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim -- ó ânsia! -- eu a teria...

Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases dourados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante...

De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.
Mário de Sá-Carneiro - Paris  - maio 1913

Voz de João Villaret em Autopsicografia de Fernando Pessoa

Wednesday, October 28, 2009

Folhas Caídas - Almeida Garrett

'Antes que venha o Inverno e disperse ao vento essas folhas de poesia que por ai caíram, vamos escolher uma outra que valha a pena conservar, ainda que não seja senão para memória.

A outros versos chamei eu já as últimas recordações da minha vida poética. Enganei o público, mas de boa fé, porque me enganei primeiro a mim. Protestos de poetas que sempre estão a dizer adeus ao mundo, e morrem abraçados com o louro - às vezes imaginário, porque ninguém os coroa.

Eu pouco mais tinha vinte anos quando publiquei certo poema, e jurei que eram os últimos versos que fazia. Que juramentos!
Se dos meus se rirem, têm razão; mas saibam que eu também primeiro me ri deles. Poeta na primavera, no Estio e no outono da vida, hei-de sê-lo no inverno, se lá chegar, e hei-de sê-lo em tudo.
Mas dantes cuidava que não, e nisso ia o erro.'

Barca Bela - From Folhas Caídas of Almeida Garrett

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
ó pescador ?

 Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela ?
Colhe a vela,
ó pescador !

 Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
ó pescador !

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
ó pescador !

  Pescador da barca bela,
inda é tempo, foge dela,
Foge dela,
ó pescador !
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Almeida Garrett 1799-1854
Folhas Caídas